Roberto Cabot

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Museu
Praia
Reflexo

2006


Dimensões: aprox. 7 x 3 x 13 m
Materiais: pintura, areia, piso

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O OLHAR DE ROBERTO CABOT

Por Christian Dominguez

Uma das característica mais constante na produção artística do Brasil é a incansável busca por definir uma estrutura que dê ordem à proposta estética. Roberto Cabot, em seu ateliê de Colônia, introduziu-me à obra do genial escultor e arquiteto mulato do século XVIII, Aleijadinho, na qual já se reconhece claramente essa constante. Foi uma descoberta para um europeu que havia visitado o Brasil em várias ocasiões.

A intervenção que Roberto Cabot apresenta agora no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro conta também com um forte substrato construtivo e estrutural. O trabalho consiste em uma pintura de grandes dimensões, realizada sobre uma parede do foyer do museu, cujo reflexo é traçado com areia no chão. Utilizando as características específicas do espaço, o artista gera uma anamorfose com a areia da praia, que, a partir de um determinado ponto de vista do observador, coincide com o reflexo da parede pintada no solo brilhante do museu. Para realizar a intervenção, o artista contou com a colaboração de Isaac, um dos ‘artistas populares’ que constroem castelos de areia nas praias da cidade, verdadeiros especialistas nessa técnica.

É evidente que a atual intervenção, assim como a potente obra que tenho acompanhado no ateliê do artista, encontra a sua origem formal - e também conceitual - nas experiências concretas e neoconcretas realizadas por alguns surpreendentes artistas brasileiros, durante os anos 50 e 60, especialmente nos Metaesquemas do visionário Hélio Oiticica.

A obra de Lygia Clark, Hélio Oiticica e muitos outros artistas plásticos, pensadores e poetas brasileiros da época envolvia um conteúdo social, que também buscava ordenações construtivas e estruturais, desta vez com presença mais profunda e radical, incluindo a participação do indivíduo e, com ele, a de toda a sociedade.

Sem dúvida, a obra de Roberto Cabot inscreve-se conscientemente nessa dialética inevitável. Sua intervenção no MAM do Rio de Janeiro constrói-se claramente em vários níveis estruturais: o do espaço físico do edifício, o do espaço meta-virtual do reflexo, o do espaço mental da representação, o do espaço institucional do museu e, finalmente, o do espaço social, que corresponde à transmigração do artesão que trabalha no espaço popular da praia para o espaço da instituição, numa lógica quase borgiana, que lembra o funcionamento conceitual do "Jardim dos caminhos que se bifurcam" ou do "Aleph", que o escritor descreve como o lugar onde todos os planos do universo coincidem em um mesmo ponto. Conseqüentemente, os fatores que configuram a intervenção vão reconstruindo, um por um, momentos históricos da arte brasileira recente. A isso adiciona-se um elemento de raiz européia: a utilização do efeito/conceito ótico do reflexo - e da anamorfose, seu maquiavélico produto subsidiário. O reflexo como análise última da mãe de todas as propostas estéticas, aquela que questiona nossa identidade.

O olhar de Roberto Cabot já não pode ser o mesmo dos grandes pioneiros da arte no Brasil dos anos 60 e 70, daqueles que descobriram sua identidade cultural contemporânea. Roberto Cabot pode, hoje, ver o Brasil a partir de fora, como um brasileiro que construiu parte de sua consciência estética e social também em países como França, Espanha e Alemanha, todos sobrecarregados de digestões culturais ao longo de milênios (virtuais) de mass-media. O olhar de Roberto Cabot compartilha a complexa simultaneidade de planos e níveis, típica das mídias modernas, mas a imagem que ele nos proporciona já reside de modo indelével em nossa memória, e deixará (como as de Lygia Clark e Hélio Oiticica) um testemunho visual surpreendente. A intervenção que Cabot realiza no MAM do Rio de Janeiro participa de seu autêntico tempo e de sua autêntica gente e, algum dia, tampouco nós poderemos ser as testemunhas do Brasil de hoje, porque teremos simplesmente desaparecido. Contudo, milagrosamente, a obra terá sobrevivido à tempestade mediática da cultura de sua época, terá escapado pelos interstícios.

Traduzido do espanhol por Lucas Malmor